quarta-feira, 25 de abril de 2018

25 de Abril

Eu também saúdo o 25 de Abril!
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Estava em Portalegre, dormia no Seminário e dava aulas na Escola Técnica. Era quinta-feira, o meu dia de folga (se a memória não me atraiçoa!). Dormia até um pouco mais tarde...
Mas nessa quinta-feira, logo pela manhãzinha, alguém me batia à porta. Era o Dr. Patrão, o meu grande amigo P. José Dias Heitor, a quem tanto devo, especialmente no gosto de usar as tecnologias para misturar a palavra, a música e a imagem...
- António, houve uma revolução em Lisboa! Os militares sairam à rua e estão a tomar conta do poder. Não sabemos se as coisas vão para a frente. Os noticiários ainda dizem pouco...
Levantei-me, num alvoroço incontido, a respirar aquele ar novo da manhã que me anunciava novidade, mudança, transformação das nossas vidas... Eu, que então estava já decidido a alterar o meu modo de viver custasse o que custasse... Bem sabia o que me ia esperar. Pelo menos, eram grandes as ameaças de alguns deputados do tempo. Lembro-me de um célebre Dr. Casal Ribeiro, de Castelo de Vide, a ameaçar todos os padres que abandonassem o seu múnus que iriam malhar com as costas na guerra de África... Questão também aflorada pelo meu bispo a provocar-me reflexão... 
Mas eu queria mesmo mudar de vida. Ao Sr. Bispo dizia que Deus é meu Pai e que mecravos.jpg vai compreender e apoiar sempre. Quanto aos deputados, resignadamente esperava o meu futuro incerto, que não era essa ameaça que me desviava dos meus sonhos. Para já, passava de efectivo a provisório, como dizia outro grande amigo - o Dr. António Marcelino, quando eu lhe dizia que talvez pudesse encontrar um lugarzinho de professor provisório.
Naquele dia, sem tarefas a cumprir, foi o tempo passado com o ouvido na rádio e, a pouco e pouco, também com um olho na televisão e nos ajuntamentos que fazíamos em conversas sem fim...
Sucederam-se as novidades, com mais notícias boas que más. Logo no 1.º de Maio, lá estava eu na manifestação pelos jardins do Tarro até ao grande plátano que domina o Rossio da cidade.
Do resto não me lembro...
António Henriques

sábado, 31 de março de 2018

Uma sexta-feira santa diferente


É costume eu participar na celebração da Morte do Senhor às quinze horas. Para mim, sempre foi um momento significativo, tão forte que nunca fui capaz de viver aquela hora sem parar na igreja ou em qualquer outro lugar onde estivesse.
Este ano não foi possível estar na igreja. A convite de uns amigos que vieram de longe, não quis furtar-me a um almoço com eles, o único possível encontro com quem veio de muito longe e queria celebrar a nossa amizade. As decisões têm sempre outras alternativas e temos de conversar com a nossa consciência para com ela discutir sobre qual o melhor caminho. Para mim, foi este…
Assim, um pouco pressionado por esta ausência de paragem à “hora tertia”, comprometi-me a ir à noite à Via-Sacra na Igreja Scalabrini, preparada e levada a cabo pelos jovens da paróquia, cerimónia em que não costumo participar.  
Sinceramente, valeu a pena, não obstante as duas horas que o acto demorou. Logo à entrada da porta, velas acesas e toda a igreja em semi-obscuridade convidavam ao silêncio e ao recolhimento, a que os fiéis aderiram com normalidade. E toda a cerimónia se viveu neste ambiente em que a luz focava, em cores diferentes, os motivos ou os figurantes de cada cena.
No espaço do altar, erguiam-se velas acesas, em grupos de sete, assim como na parede se destacavam a estrela de David e o candelabro judaico de sete velas também, número simbólico a indicar a realização completa da obra da salvação, juntando Antigo e Novo Testamento num único momento de sacrifício salvador da humanidade.
As 14 estações da Via Sacra eram momentos de reflexão, unindo a palavra do Evangelho, pequenos comentários e a representação cénica de cada um dos passos da Paixão e Morte de Jesus. Estes jovens levaram a sério o seu trabalho, numa linguagem adequada a cada momento, com gestos e movimentações suaves, entrecortadas por cenas ásperas como o encontro no Getsémani, as três negações de Pedro e as imprecações da plebe a gritar “Crucifica-o”.
O órgão unia cada momento numa toada surda e o coro de crianças elevava a alma numa oração cantada a Deus Pai, ao Filho ou a sua Mãe.  14 estações, 14 Padre-Nossos e 14 jaculatórias “Nós vos louvamos e adoramos, Jesus Cristo / Que pela vossa santa cruz remistes o mundo”.

Pormenores a reter

1 – As criadas exasperaram Pedro, que negava conhecer Jesus. Para mentir, até temos de levantar a voz, embora sem sucesso, pois o galo não se esqueceu de cantar. A mentira dói, e os amigos não merecem tal desatino…
2 – Aquele Pilatos vivia cheio de força e ao mesmo tempo titubeante a andar por ali sem saber bem o que fazer. Também lava as mãos e pergunta o que é a verdade, mas o poder tolda as consciências e as respostas tornam-se desumanas.
3 – Simão de Cirene, um estrangeiro, é obrigado a carregar a cruz que Jesus não suportava. Os estrangeiros são muitas vezes tratados assim, infelizmente… Até a cananeia, para ser atendida por Jesus, teve de dizer que «os cachorrinhos comem as migalhas da mesa do seu senhor»… E quantas cruzes inesperadas nos surgem pela frente a cada dia? Aceitar a vida com as sombras negativas é também atitude cristã. Fê-lo Jesus, que não desejava tal fim humano…
4 – O Jesus humilde, sereno, que poucas vezes levanta a voz, cabia bem na figura daquele jovem. Com tanto frio que fazia, até foi crucificado. E as três pancadas do martelo na cruz também me bateram no peito ou na consciência… Muito enternecedora e trágica foi a cena de Maria a receber em seu colo o filho morto. Dá que pensar.
5 – Termino, para não me alongar demais, com os parabéns a todos os que prepararam este momento de teatro religioso, que nos ajudou a reflectir e a rezar, sem esquecer os que ficaram por detrás e ajudaram os jovens a preparar as cenas.
E volto a elogiar todo o ambiente de recolhimento, provocado por luzes, sons e imagens que nos fizeram concentrar no principal. Já S. Inácio de Loiola dizia que para rezar era importante «fazer a composição do lugar».

António Henriques


segunda-feira, 26 de março de 2018

Escapada alentejana



Por vezes, é preciso celebrar a vida de um modo diferente, quando a história pessoal o aconselha. E que rico fim-de-semana vivemos, a partir de 22 de Março. Quisemos mergulhar no Alentejo, sentir o seu pulsar e conviver com as suas virtualidades. Primeira paragem no Redondo. Vila em franca actividade, com muralhas e torre de menagem, com olaria, culturas da vinha e do azeite. Pessoas a saber receber-nos…
Passeámos pelas ruas em busca do desconhecido. Sem horas marcadas, conversa fácil. Visitámos Igreja, Museu do Barro, a Porta da Ravessa. Almoço com migas de espargos e “lagartos” grelhados (as tiras menos gordurosas dos bifinhos de porco!). Corremos duas ou três olarias… Que bom…
Seguimos para Reguengos de Monsaraz, rodeada de preciosidades turísticas. Reguengos é terra de vinho, em franco desenvolvimento, onde até espanta ver, nos dias que correm, uma urbanização nova em construção. Em redor, além de Monsaraz, onde o xisto e a cal branca reinam, vemos as águas do Alqueva, que pintam de azul os verdes da paisagem. Olhar o horizonte sem pressa, que felicidade… E aquela açorda de cação no Beiral de Mourão? Fica na memória… Ainda pusemos os pés em Espanha, mas, sem um restaurante e com gasolineira fechada, voltámos a correr… 
Depois, avançámos para sul, visitando Vidigueira e Cuba, onde nunca tinha estado. Gostámos! A limpeza, a organização harmoniosa do espaço dizem-nos que não são terras abandonadas. Surpresas? A torre do Relógio sobressai na Vidigueira e, em Cuba, demos com o local onde se lembra que ali nasceu Cristóvão Colombo. E comemos feijoada com tengarrinhas, palavra que tantas vezes lembrei na apresentação dos livros da Maria Vitória Afonso e agora me apareceram pela frente. Saborosas! Em Beja, na praça, conseguimos comprar um molho, para em casa repetir a receita… Assim se matam saudades…
Gostámos deste passeio. As fotos ajudam a ver mais que as palavras. Obrigado por me lerem. 

António Henriques









quarta-feira, 21 de março de 2018

Outra visão de José Régio

A visita a um museu, mesmo repetida, traz sempre alguma surpresa. Aconteceu-me também na última visita que fizemos à Casa-Museu José Régio em Portalegre.
Ainda agora me espanto com o pedaço de tronco espalmado, coberto por um simples cobertor, que servia de assento ao professor e autor José Régio durante as muitas horas diárias em que ele trabalhava a preparar as aulas e a produzir obra literária. Infelizmente não tenho foto. Era desta forma, sem um encosto sequer, que ele combatia o sono...
Além disso, também me chamou a atenção especial um grande quadro a cores pintado pelo artista. Pergunto à guia, que me diz que aquele quadro era uma transposição para pintura do crucifixo que estava em frente, feita pelo próprio artista, que cultivava um sentimento de união ao Cristo sofredor.  José Régio1.jpg
Esta faceta era-me desconhecida. Nas investigações que fiz posteriormente, descobri que os quatro irmãos Reis Pereira - José, Júlio, João Maria e Apolinário - se irmanavam também no gosto e cultivo do desenho e da pintura e os três primeiros ficaram igualmente conhecidos pela sua produção poética. É o próprio José Régio que fala desta comunhão fraternal pelas artes no seu livro "Confissão de um Homem Religioso".
O quadro a cores que vos apresento não será uma preciosidade artística, mas é já um exemplo de expressionismo modernista, com uma livre ondulação de linhas e onde as figuras permanecem numa obnubilação misteriosa, sobretudo aquela trágica cabeça de Cristo que o artista deixa apenas com alguns traços. Mais visível está o outro cristo, ao fundo do quadro.
Trago taJosé Régio 5.jpgmbém para aqui o crucifixo em que Régio se inspirou para produzir esta obra plástica, que no canto inferior direito se diz que é um estudo para tapeçaria, se é que eu leio bem. Será uma proposta para as Tapeçarias de Guy Fino, as célebres tapeçarias de Portalegre, com quem Régio privava com assiduidade? Eu ainda conheci o Dr. João Tavares, um dos artistas que mais cartões pintou para serem reproduzidos em tapetes e que era um dos poucos amigos de Régio, daquele círculo fechado que se reunia na mesa do canto no Café Alentejano.
Já agora, para rechear mais este post, ainda digo que este jeito para as artes plásticas levou o nosso artista a ilustrar ele próprio os seus livros. São desenhos que estão de acordo com este quadro e reflectem também o sentido trágico e misterioso da vida. As ilustrações que descobri são, penso eu, do seu livro "Poemas de Deus e do Diabo".

António Henriques








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quinta-feira, 8 de março de 2018

Dia Internacional da Mulher

Na homenagem à MULHER-FLOR da minha casa, presto homenagem a todas as mulheres, que adoçam, suavizam, facilitam e iluminam os nossos passos.

Hoje deu-me para isto, eu que não gosto muito destes dias especiais, pois normalmente sugerem logo que algo vai mal neste reino.

Mas é tão fácil constatar a importância da mulher no nosso dia-a-dia, que eu cometi esta excepção. Penso primeiro na Antonieta, é verdade, mas homenageio todas as mulheres, mesmo aquelas que não conheço. No correr dos dias, as mulheres são um exemplo de trabalho, persistência, coragem, sacrifício a favor do equilíbrio do mundo, da normalidade das relações, da humanização dos serviços e do ambiente afectuoso em que gostamos de viver.
Cá em casa, a Antonieta é mesmo este ser especial para quem todos olhamos com carinho, enlevo e muita admiração. E amamos-te, minha mulher e mãe dos meus filhos.
António Henriques

sábado, 23 de dezembro de 2017

Voltando à Madre de Deus


Já aqui expus as maiores impressões que me causaram a visita guiada à Igreja da Madre de Deus, ali em Xabregas. E, ao lado, encontra-se o Museu do Azulejo, um museu didáctico a que muitos recorrem para apreciar a rica azulejaria portuguesa, que um dia também abordarei.
Hoje, apetece-me falar mais do Coro, um espaço sobranceiro à Igreja, reservado, onde as clarissas assistiam à Missa e rezavam o Ofício Divino. Continua a impressionar a riqueza e mesmo a excrescência da talha dourada e ainda o número elevado de pinturas que adornam o espaço. É o barroco em todo o seu esplendor (vide foto).
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1 - As monjas ocupavam cada uma o seu lugar, que se caracterizava por ter um assento articulado, que se levantava para que a ocupante pudesse estar de pé no mesmo lugar. Ao levantar o assento, este tinha uma pequena tábua colada na horizontal que permitia que a freira pudesse descansar, embora parecesse que estava de pé. E o cadeiral tinha ainda dois braços laterais em que se podiam apoiar os cotovelos. Tudo para que o muito tempo que as freiras passavam em oração não fosse demasiado incómodo.
Mas eu notei que o guia, ao mostrar como aquilo funcionava, ficava com os braços muito acima do encosto. Para ele, os braços do cadeiral eram baixos. Pudera! Passaram dois séculos e as pessoas são cada vez mais altas!...
2 - Ao centro, em cima de um tapete, podemos ver uma estante de coro, necessária para se cantar com o livro à distância, que era coisa que não abundava ao tempo. Não vejo que fosse fácil esta leitura àquela distância, embora os livros do tempo tivessem grandes medidas, mais que meio-metro de altura!Madre Deus.jpg
Madre Deus1.jpg3 – Muito gostam os nobres de conviver com as freiras, não... queria dizer com os santos, para que o seu nome e a sua efígie perdurassem no tempo e na eternidade. Ao fundo, do lado esquerdo, lá se encontra uma pintura com o Rei D. João V ao lado de S. João Batista e, do lado direito da foto, a imagem de D. Leonor com a S. Clara de Assis.
4 – Durante a visita, alguém chamou a atenção para a nudez do altar-mor, que se pode ver noutra foto. Sem os arrebiques do barroco, é constituído apenas por pedras de duas cores e formas simples. Há explicação? Claro: aquelas pedras nuas eram revestidas por belos frontais de altar, muitas vezes de tecidos caros, brocados de seda entretecida de ouro ou prata, até com relevos... À falta deles, ou por moda do tempo, usavam-se ricas peças de azulejaria, como podemos admirar esta no Museu do Azulejo.
Foram notas soltas, impressões de uma visita, que podem interessar a alguém.
António Henriques

NOTA: Por cima da abertura que, no coro, permitia a visibilidade do altar-mor, há um quadro gritantemente ornamentado, de louvor ao SS. Sacramento. Podem observar melhor a foto, assim como ver mais uma vez a imagem do corpo e da capela-mor da Igreja. Acrescento ainda um frontal de altar em azulejo, com notórias influências orientais.













segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Visita ao Mosteiro da Madre de Deus

Não é uma questão de neura, pois a vida não me conduz para aí, graças a Deus.
Tecto em abóbada com caixotões pintados 
Foi um convite que nos surgiu pelo Facebook. Lembravam-nos que havia uma visita guiada ao mosteiro da Madre de Deus, ali para Xabregas, na manhã deste domingo.
Consultada a família, convidados uns amigos, lá nos inscrevemos. As sensações melhores vieram no final da visita. Como foi agradável passar uma manhã embrenhados em cultura, regalando os olhos e os ouvidos com quadros e histórias algumas bem conhecidas e outras nem tanto... Mas esta sensação de deixar o quotidiano, esquecer a casa e os gatos por umas horas, limpar a cabeça de preocupações, levanta o ânimo, descansa o espírito e carrega-nos de energia pacífica! Foi isto que ouvi também aos meus companheiros de viagem...
O mosteiro integra o Museu do Azulejo, já nosso conhecido e bem estudado há uns anos atrás, e os espaços dedicados mais às funções religiosas e de habitação das freiras franciscanas clarissas que o habitaram desde o séc. XVI. Pessoalmente, eu não conhecia estas dependências maravilhosas, que me encantaram.  Os claustros, de contornos manuelinos ou pós-manuelinos, são sóbrios, como é próprio dos espaços femininos das clarissas.
Mas nas outras dependências, a riqueza exibida não condiz com o rigor da Ordem Franciscana, sendo evidente o carinho que a realeza tinha por este património e ao qual dedicaram sempre muita atenção.
Sujeita a muitos trabalhos de restauração, sobretudo após o terramoto de 1755, notamos na Igreja notas do estilo gótico, do clássico (na capela-mor), mas é o barroco que mais impressiona, quer na profusão de talha dourada dos altares ou nos muitos quadros de pintura que ornam as paredes. Dá vontade de dizer que, se em Portugal o azulejo serviu para fazer as vezes das grandes tapeçarias e pinturas com que na Europa se forravam as paredes, ali ainda são as pinturas e a talha dourada que dominam, embora encontremos lá as paredes forradas com grandes painéis de tons azulados, típicos do séc. XVIII. E na pintura, fiquei preso ao quadro da Assunção e coroação da Virgem, que encima o arco que separa o corpo da igreja da Capela-mor, quase um Arco do Triunfo como em Paris, pintura esta do grande pintor Oliveira Bernardes, disse o guia.
Mais poderei dizer em dias seguintes. Por ora, recreiem-se com este pequeno vídeo, com música ao vivo!
António Henriques


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

OS PRESÉPIOS DA PRAZERES

A Prazeres é minha irmã. Durante muitos anos viveu pelo mundo fora como Irmãzinha de Jesus em Fátima, Lisboa, Tunísia, Belém e Nazaré, sempre no meio de palestinianos que lhe entraram pelo coração adentro.
Nos últimos anos, com grandes problemas de saúde, porque a sua comunidade não lhe garantia grandes condições de vida, conseguiu acolher-se ao Lar das Irmãzinhas dos Pobres, ali em Lisboa, em Campolide, com acesso fácil a subir a dita Rua de Campolide, entrando no portão largo que se abre quando o carro se aproxima. 
Frequenta os encontros das suas Irmãzinhas, mas no seu dia-a-dia trabalha, trabalha para louvar a Deus e ser útil.
O resultado do seu trabalho está nestas fotos: centenas de pequenos e artísticos presépios, onde ela usa as lindas imagens em barro que também são confeccionadas em Fátima, na Fraternidade, para onde ela as envia para cozerem.
Chegado o mês de Novembro, o Lar do Velhinhos das Irmãzinhas do Pobres em Campolide faz uma grande exposição onde apresenta muitos artigos em muito bom preço, doados por amigos, e onde também estão à venda por preços irrisórios os presépios da Prazeres, cuja venda reverte totalmente para o dito lar.
Eu não os posso comprar todos!... Os leitores não quererão passar por lá para fazer uma obra de caridade? Eu acho que vale a pena... Por 2 ou 3 €, já trazem presépios!
AH




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Coisas bonitas na Igreja

Esta vai sem foto, mas é muito importante para mim.
A missa deste domingo (12/11/2017) celebrou sobretudo a palavra de Deus, exaltada no que foi chamado o "Dia Paroquial da Bíblia", segundo recomendação do Santo Padre na Carta Apostólica que publicou no fim do Ano da Misericórdia.
O Sr. P. Geraldo nem fez homilia, pois a encenação que se representou foi bem uma rica homilia, que nos ia entrando pelos olhos dentro. Crianças da catequese iam aparecendo com símbolos bíblicos, a acompanhar um roteiro distribuído a toda a assembleia num folheto muito bem feito e íamos ouvindo e cantando que «a Palavra de Deus é Luz», ...«é Alimento», ...«é Água Pura», ...«é Paz», «...é Ressurreição», ...«é para ser anunciada» e, finalmente «a Palavra de Deus é JESUS CRISTO».
O que mais me tocou foi a distribuição de uma 20 Bíblias a crianças da Catequese. Uma a uma, aproximavam-se do Celebrante e ouviam uma breve mensagem do sacerdote, respondiam "Ámen" e seguiam para o seu lugar com aquele precioso tesouro. E não é que o celebrante foi capaz de dirigir a cada uma uma palavra diferente, muito directa, sem se repetir?
Fica este elogio, a pensar nestes meninos e meninas que não vão esquecer facilmente o que ouviram, tão pessoal foi.

António Henriques

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A EXPOSIÇÃO DE MIRÓ

Fala-se tanto de Joan Miró... Por quê não hei-de ir até ao Palácio da Ajuda, aqui tão perto, para olhar para aquelas «oitenta e cinco pinturas, desenhos, esculturas, colagens e tapeçarias» que são propriedade do Estado português? Já fizeram correr tanta tinta aqueles trabalhos avaliados em milhões...
E fomos mesmo. Convidámos uns amigos para este passeio prazeroso e zarpámos para o Palácio Nacional, onde nós já vimos coisas bem interessantes: as extravagâncias da Joana Vasconcelos, os sons melodiosos do filho António Luís integrado no Coro de Câmara de Lisboa e ainda uma outra obra musical de que não me lembro bem...
Amálgama de materiais para dar forma e cor
Confesso que ia um pouco descrente, sem saber se ia gostar ou não. Mas a curiosidade era muita. Muita era também a frequência daquele espaço, sinal da fama que Miró arrasta nos nossos dias. À falta de guias que nos ajudassem a compreender aquela produção artística, íamos lendo todas as informações e olhando para as obras de Miró, muitas vezes sem nada perceber “como um boi a olhar para um palácio”.  
O que melhor compreendi foi a tentativa de Miró em trabalhar com todos os suportes da sua arte como se fossem uma novidade, dando-lhes novos sentidos e funções: uma linha podia ser um arame, a cor podia ser representada por fios de lã, um simples contraplacado rugoso, sem uma preparação do suporte, podia servir de base a uma pintura ou colagem, a tinta ou o guache podiam ser substituídos por pedrinhas... E porque não deitar fogo a uma tela, deixar actuar a sua energia e verificar o resultado final?
Suporte rudimentar com pedras coladas a centrar a atenção
Certo, certo é a liberdade com que Miró mexe nos materiais pictóricos e os leva ao extremo, chegando a pregar na tela o alguidar das limpezas ou a sua vassoura, numa visão tridimensional da sua obra...
Para André Breton, Miró era o maior surrealista do séc. XX. Frequentando Picasso e outros modernistas, para Miró a figura, seja humana ou material, tem de ser ultrapassada, sobre-realizada, restando uns pontos e umas linhas em que predomina o sonho, mais que a anatomia. Mestres no uso do desenho e da cor, os surrealistas abriram caminho a formas mais ousadas de expressão artística.

As obras presentes na Ajuda representam 60 anos de trabalho, em que as próprias tendências do artista vão variando, reduzindo-se cada vez mais a técnicas simples e de poucos recursos pictóricos.
Nas vésperas da Grande Guerra, vemo-lo a pintar figuras humanas de pescoço esguio e grandes cabeças, em que se pressente um ar assustador, ou desenhos que parece quererem sair do suporte sem lá caberem.
Intrigante, toda esta exposição. Saio de lá a pensar que outros vêem o que eu não vislumbro. Mas não deixo de admirar o equilíbrio, a graciosidade e mesmo a gradação de linhas e cores que vi nalguns quadros.

António Henriques