quarta-feira, 31 de março de 2021

Ninguém se salva sozinho

Ando nos últimos dias com este pensamento na cabeça e, nem sei porquê, a qualquer hora do dia e nas mais diversas circunstâncias, ele se repete sem clara justificação…
Será já reflexo do ensimesmamento a que o vírus nos remeteu? Será já um grito a empurrar-me para os outros, a convencer-me da importância da comunhão com familiares, amigos e todos os que, incógnitos, contribuem para me facilitar a vida?
Realmente, os últimos tempos têm sido pródigos a experimentar o valor de muitos préstimos que me facilitam os dias.
Preciso de produtos do supermercado? Vou à Internet, faço uma lista e daí a umas horas estão a tocar à campainha para me entregarem os alimentos. Preciso de comprar um livro? É tudo simples: sem sair de casa, encomendo e daí a dois ou três dias aqui tens o pedido. O mesmo acontece com os ténis que calço, com o vinho que bebo, a comida para os meus dois gatos e com mais outras circunstâncias de que se tece a vida. Só é pena que ainda tenha de sair para resolver o que a Internet e o telefone não me resolvem. Vejam como um vírus me está a alterar hábitos através do confinamento obrigatório…
E agora olho para o circuito comercial que se estabelece para solucionar as minhas necessidades. Quantas caras anónimas se mexem e contribuem para o meu bem-estar! E não é só lá fora. Também aqui, em casa, eu começo a dizer: obrigado, Antonieta, por me facilitares a vida!
É esta rede de relações que me deixam muito agradecido e que eu transporto para novas realidades. Também eu devo ajudar os outros. Também eu devo facilitar-lhes a vida. E cada vez que o faço alegro o outro e alegro-me a mim próprio. Se calhar, muita gente envinagrada que há por aí é assim porque não ajuda os outros…
A minha Páscoa também se faz com este esforço em construir vida, colaborar com os outros, dar voz às boas causas, mostrar valores escondidos dos colegas, impulsionar projetos que vão satisfazer os que neles estão implicados.
Às vezes erro? Só não erra quem nada faz… E eu não vou por aí!

António Henriques

sábado, 13 de março de 2021

A raia de Alcoutim

Quando eu era criança, aparecia muito raramente na aldeia alguém a quem chamavam contrabandista. Lembro-me da bombazine e das gorras, aqueles barretes sem pala, ajustados à cabeça das crianças, com que nos protegíamos do sol e do frio e que só eles vendiam. Mal sabia eu que um dia alguém me colocaria nas mãos um livro a versar sobre essa economia clandestina que alimentava bocas de gente pobre, a viver de uma agricultura rudimentar, que precisava de outros apoios e audácia para melhorar as suas condições de vida.

Estou a falar do livro do meu colega e amigo, José Dias Rodrigues, a quem devo algumas das primeiras lições de Informática, que me iniciaram neste novo alfabeto a que muitos da minha idade resistem, ficando agarrados à imprensa de Gutenberg.

Publicou ele “A raia de Alcoutim” em setembro passado, numa homenagem à população da sua terra natal. E, como lhe prometi, aqui deixo a minha apreciação ao seu trabalho.

 

1 – Uma história

O autor, que logo no início afirma que não tem «qualquer pretensão de natureza literária», e quer apenas «contar uma história», não é assim tão destituído de conhecimentos, pois a sequência das páginas revela uma real ordenação de acontecimentos, uma descrição mínima de personagens e uma exaustiva abordagem dos ambientes e fainas agrícolas que leva o leitor a agarrar-se a esta história. Curiosamente, é ele que diz que «os relatos não são totalmente verdadeiros, mas também não são completamente falsos». Sim, é esta verossimilhança dos factos que nos prende e leva a imaginar que de acontecimentos reais se trata.

A nível literário, pensando nas técnicas da narração, quero ainda realçar estes pormenores: - logo no início, surge um facto inesperado – o ribombar de tiros, que nos prende pelo sofrimento das personagens e nos faz perguntar como é que eles agora vão resolver o problema; - depois, é a intriga que acompanha todas as páginas até ao fim do livro – quem te roubou o café? – foi o amante da Rosa? – quem será o amante da Rosa? - e mesmo nas últimas páginas ainda o problema não tem resolução definitiva, ficam dúvidas…

Finalmente, a nível literário, de vez em quando surgem imagens de fino recorte, como ver os homens a «deslizar como cobras ao longo do trilho irregular» (pág. 13) ou «ao ver a farda à sua frente, a adrenalina irrigou-lhe o corpo todo, como se uma injecção lhe tivesse sido aplicada…» (pág.25) ou ainda outra expressão: «José Cachopa ficou capaz de vida não ter! A sua cabeça cedeu como se uma onda gigante lhe tivesse rebentado dentro… (pág.170).

 

2 – O conteúdo

O autor, com a sua história, fixa-se especialmente naqueles 14 km da “raia de Alcoutim”, aquela linha imaginária ao longo do rio Guadiana, alongada para muito território espanhol,  por onde circula a vida de muita gente a viver do campo e com os mais corajosos a aproveitar-se da proximidade do território espanhol para reduzir a sua penúria através do contrabando, uma atividade perigosa por ser ilegal, não ter regras e deixar o indivíduo à mercê de um tiro, de uma prisão prolongada, dos imprevistos do negócio ou mesmo de uma traição.

O contrabando não enriquecia ninguém, mas ajudou alguns a viver melhor, situando-se entre os anos 30 e a década de 60 do século passado. Nos anos 60, outros fenómenos mais gerais alteraram a vida de muitos portugueses. O autor refere-se à emigração para fora (França/Alemanha) e mesmo para dentro de Portugal - os grandes centros urbanos e industriais - e ainda a guerra do Ultramar. Daí o subtítulo do seu livro: “Contrabando, emigração e outras narrativas”.

Esta realidade sociológica vai aparecendo ao longo das páginas através das duas personagens principais, o José Cachopa e o Manuel Roberto, um a viver do lado de cá e o segundo, depois do contrabando, a fixar-se no território espanhol, como agricultor a tomar conta de uma “finca”, já que a guerra de Espanha (1936-39) despovoara os campos na sua sanha militar de destruição, por morte de muitos e por fuga de outros que se sentiam perseguidos.

Ao longo das páginas, vamos assistindo às peripécias da vida destes dois amigos, que até se ajudam nas caminhadas com cinco ou seis homens que o José Cachopa leva consigo, carregando cada um 30 kg de café e deslocando-se para a Espanha numa distância de 30 km, onde o amigo o apoia e facilita os contactos. Mais tarde, os dois embarcam na aventura da emigração, vendo-os a trabalhar em fábricas na Alemanha por uns anos e regressando mais tarde para o seu Alcoutim, com um pecúlio que os ajuda a viver melhor os seus dias.

O autor contextualiza o desenrolar desta história local com a referência às circunstâncias políticas de Portugal, Espanha e Europa que também se vão alterando e provocando mudanças na vida das pessoas. A guerra civil de Espanha, a guerra no Ultramar português, o Maio de 68, tudo influenciou as mentalidades e os projetos pessoais. Achei curiosa a referência à tendência de os alcoutinenses irem para a Marinha ou a Guarda Fiscal, como maneira de fugirem à mobilização para a guerra nas colónias.

 

3 – Considerações especiais

- Regionalismos: relevo em primeiro lugar o uso de uma linguagem regionalista, só acessível a quem a usou por muitos anos, o que enriquece a verdade da história. É o vocabulário técnico do dia a dia, em itálico ou em nota de rodapé, que muita graça confere ao texto.

- Riqueza toponímica: o autor esforça-se por dar nome a cada palmo de terra, quer em Portugal quer em Espanha, como quem conhece bem o terreno. Enumera os treze postos da Guarda Fiscal na região com 92 homens, cada um com guarnições diferentes, dá nome próprio às empresas da região e até à Famel, a motorizada que o tocador do fole (concertina) usava para animar os bailes. Percorre as muitas “fincas” de Espanha por onde se espalharam portugueses com nome próprio. Já não é assim tão pormenorizado quando envia os seus personagens para a Alemanha, de onde ficamos com poucas referências.

- Realismo nas descrições: tenho que dizer que me impressionou o pormenor com que o autor descreve a habitação do casal que vai viver numa “finca” em Espanha, Tariquejo, ou como ele conhece bem estes negócios escuros, sem leis, as manhas dos recetadores, dando-se ao trabalho de fazer todas as contas no deve/haver do café, dos quilos de amêndoa, bombazine e alpercatas que trazem de volta e no pagamento aos voluntários que auxiliaram o contrabandista. É até hilariante a descrição dos passos para preencher os impressos dos candidatos à emigração legal para a Alemanha. Como também é com bonomia que o trabalho na fábrica da Alemanha é tratado como «uma brincadeira de gaiatos»!

E já me alonguei em considerações. Deixo os parabéns ao autor e o estímulo para continuar a valorizar a sua terra, os Balurcos, a que me ligam amizades inesquecíveis. Vou recrear-me um dia destes com a leitura de outro livro do José Dias Rodrigues - Ecos do passado em Balurcos”(2019), outra produção escrita a valorizar a memória da sua terra e do seu concelho.

 

António Henriques

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O comboio pequenino

Há poucos dias, fez anos o Aníbal Henriques, meu primo direito… Este nome está a puxar pela minha memória. É que muitas coisas aconteceram na vida dos dois que não esquecem de todo. Outras desaparecem no turbilhão do armazenamento mental, ou porque se trocaram as caixas ou porque estavam muito cheias e começaram a deitar fora. Na minha idade, acontece!
Os nossos pais nasceram na Ribeira do Vale da Ursa, ali perto dos Cunqueiros e Isna de Oleiros, para vocês localizarem, em plena zona do Pinhal beirão.
Da aldeia tenho poucas memórias, mas ainda me lembro das camadas de neve que enregelavam os pés. Dizia o meu pai: - “vem atrás de mim e põe os teus pés nas pegadas dos meus para andares melhor…” Mesmo assim, com dificuldade eu enterrava as botas naqueles buracos fundos que meu pai deixava e lá ia caminhando. Eram uns bons quilómetros. Outra recordação é o vinho morangueiro, das uvas americanas (assim se dizia) de pele rija que sempre alegravam os dias… A agricultura era difícil, só com encostas de sobe e desce, embora nunca faltasse a água. Bem diferente era o meu Ripanso, de terras mais planas e férteis. 
De lá saíram os nossos pais quando a tropa os chamou. Meu pai aprendeu, entretanto, o ofício de carpinteiro casando para o Ripanso e meu tio, depois da tropa, foi servir o país na GNR, arrastando a esposa da mesma aldeia e indo morar para a Sertã.
Assim, nas férias, por mais de uma vez, pude ir gozar uns dias à Sertã, no tempo em que o quartel da GNR era na Alameda da Carvalha, um antigo convento hoje transformado em hotel. Uns anos mais tarde, aconteceu o mesmo em Santarém, para onde se mudam os pais do Aníbal. Convidam-me para ir até à Scalabis, onde pela primeira vez pude passear pelas Portas do Sol, admirar o gótico da Graça e espraiar os olhos pelas maravilhas do rio Tejo e da lezíria.
Hoje, pelo telefone, disse ao Aníbal que ele era um gaiato ao pé de mim, nos seus 67 anos. Mais gaiato era quando se batizou e arranjou como padrinho o meu pai. Nasceu assim outro Aníbal. Mais uma razão para maiores aproximações. E padrinho que se preze não esquece o afilhado. Talvez como agradecimento pelas atenções que os seus pais tiveram comigo, quando o Aníbal fez o 2.º ano liceal, meu pai convidou-o para ir passar uns dias ao Estoril, para onde tinha ido viver este carpinteiro que passou a chamar-se Mestre Aníbal, em terras de progresso e de turismo. 
E agora começa a aparecer o tal comboio do título.
Como é que o Aníbal vai da Sertã para o Estoril? Trabalhava eu no Colégio de S.to António em Portalegre e já tinha comprado uma Vespa de 250cm, para verem aquela potência! E estávamos em julho de 1966.
Passo pela Sertã, pego no embrulho da roupa e no gaiato e ala para Lisboa por essas estradas fora (se calhar nem a palavra autoestrada existia!). Em Alpiarça, foi a primeira e única paragem para almoçar. Mas soubemos escolher um restaurante em que pudéssemos ver na TV o memorável jogo do Mundial de Futebol 66 – o Portugal-Coreia do Norte – 5 a 3.
O primo Aníbal, encantado com a viagem de moto por terras desconhecidas, deliciou-se com o bife com batatas fritas (pois então, o que havia de ser?!) e esperámos pelo jogo. Ora bolas, meia hora depois já Portugal perdia por 3-0… E quem aguenta o Aníbal? Cheio de nervoso miudinho, diz: “Primo, vamos embora, não quero ver mais!” O Tonho, mais calmo, insiste para esperar um bocadinho, que o Eusébio ainda pode mexer com o resultado. E mexeu mesmo. Mal chegou o 3-1, o Aníbal volta a olhar para o jogo, que aos 90 minutos terminou nos memoráveis 5 a 3.
Saímos de Alpiarça cheios de alegria e capazes de galgar seca e meca, por vias e terras desconhecidas, que era a primeira vez que eu usava a minha carta de moto por aquelas paragens, mesmo em Lisboa. Carta de moto que me deixou mal em Évora, pois tive de repetir o exame por não saber fazer oitos e o pneu ter batido no lancil da estrada (também tive de chumbar uma vez na vida, para ser igual aos outros, não é?)…
Ao chegar a Lisboa, eu já tinha magicado como iria ultrapassar aquela grande cidade. Desviava de Sacavém para Moscavide e enfiava pela rua junto do rio, sem nunca me perder dentro do labirinto citadino. 
E assim foi: ia explicando ao Aníbal as poucas coisas que eu já tinha visto na capital, passámos pelo Terreiro do Paço, Cais do Sodré, Alcântara, sempre em frente e havemos de chegar ao Estoril.
Às tantas, grita o Aníbal: “Primo, olhe aquele comboio pequenino”… Eu olhei para o do Cais do Sodré, mas esse já ele conhecia. O que era novidade era o elétrico de Belém. E à falta de outro nome, vá de chamar-lhe comboio! Uns dias mais tarde, ainda andámos nele pelas ruas de Lisboa. Agora, é quase só para turistas, se o Covid deixar!
Nunca mais esqueci este acontecimento, que terá sido muito especial para não desaparecer da memória, quando nós sabemos que ela começa a transbordar e a selecionar o que lá fica encaixado.
Estive a reviver, que quer dizer “voltar a viver”. E neste presente estéril que o Covid provoca, talvez seja a melhor maneira de sentir o prazer dos dias.

António Henriques


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Votos de Ano Novo

E chegamos ao fim deste ano tão especial.

Até agora, nenhum dos que vivi se aparenta com este. É verdade que todos os anos nos trazem sombras e luzes, saúde e doença, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. 

Mas nenhum ano nos tinha afastado assim de todos os amigos, de todos os familiares, de todos os vizinhos, como se cada um de nós fosse inimigo ou fosse traído por qualquer um deles.

Duros foram os dias em que me obriguei a ficar em casa para não me infetar do tal vírus. Dolorosos foram os momentos em que disse "não" a todos os encontros, mesmo quando havia gente a suspirar por um olhar e uma palavra amiga. Só o telefone ou o vídeo me restava para um pouco de calor humano.

Mas nem tudo podemos dizer que foi negativo!

- No meio da dor e do sofrimento de muitos, estou saudável!

- Nas crises de medo, continuo intimamente confiante!

- No meio do desemprego e da fome, não me faltou o pão de cada dia!

- Num ano de tantos desastres, mantenho-me em segurança.

- Num ano de tantas mortes, estou vivo!

GRAÇAS A DEUS, continuo a viver com alegria e a apreciar as belezas deste universo tão rico e a sentir-me unido a esta humanidade tão ansiosa por paz, pão, amor e união.


A todos os que me leem desejo um ANO NOVO DE 2021 cheio de saúde, bem estar pessoal e comunitário. E que Portugal trilhe caminhos luminosos a bem de todos.

As cores fortes de Manuel Cargaleiro nestes azulejos da capela da Misericórdia, na paróquia de S. Tomás de Aquino, em Lisboa, nos encham a vida de coragem e força, para nos sentirmos cada vez mais livres.

Pela cruz à LUZ!

António Henriques

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A vida mentirosa dos adultos

 Novo livro de Elena Ferrante


Desta vez, após ter lido elogios à riqueza literária de Elena Ferrante, decidi-me ir atrás das modas e adquirir “A vida mentirosa dos adultos”, uma novidade desta autora, que há vinte anos tem entusiasmado leitores e críticos com a sua escrita desenvolta a perscrutar o íntimo das suas personagens, preferentemente mulheres.

Sinceramente, este romance ocupou-me com agrado durante este mês de pandemia, em que a casa passou a ser o único lugar para todos os devaneios. As suas 300 páginas foram lidas quase à pressa, tal não era o gosto e a vontade de ver como se iriam desenvolver os dias desta adolescente napolitana, Giovanna, que corporiza o centro da ação como narradora participante a viver uma história cheia de ligações frágeis a outras personagens, também elas carregadas de vivências pessoais que enriquecem sobremaneira estas páginas.

Elena Ferrante é um pseudónimo de mulher ou homem italiano, de Nápoles, que ninguém conhece verdadeiramente, mas que desde 1991 tem produzido obras de ficção cheias de histórias que parecem reais. Em entrevistas escritas, a autora defende o seu anonimato como um meio para usufruir de inteira liberdade criativa e não fazer autocensura, escrevendo sem constrangimento pessoal as vivências mais íntimas ou mais cruas das personagens.

Em resumo, para não retirar novidade aos futuros leitores, a história acompanha a passagem de Giovanna - a protagonista - da adolescência para a vida adulta. Ao escutar os pais sem o conhecimento destes, ouve dizer que ela está a ficar feia como uma tia não falada em casa. Isto perturba-a a ponto de começar a olhar mais para o espelho e a querer saber da tal tia Vitória.

As amigas e o ambiente tranquilo da infância deixam de contar e surge a descoberta de um mundo novo com outras figuras do mundo suburbano, pobre e industrial de Nápoles, onde mora a tal tia Vitória, renegada pelo pai e que fora apagada das fotos de família (classe média-alta de professores).  

Abre-se à protagonista um mundo diferente, de relações promíscuas, pouco recomendáveis, mas acompanhadas de sentimentos humanos profundos. E ouve outras histórias que a levam a olhar para os pais com desapontamento, pois eles não eram assim tão puros e perfeitos.

Surgem assim experiências confusas, onde se debatem os comportamentos numa tensão entre o bom ou o mau, permitido ou inconveniente na sociedade, igual aos outros ou diferente. Descobre-se que a mentira mascara muitas vidas, o que leva a protagonista a buscar a sua verdade, usando também a mentira, tentando experimentar novas relações para construir a sua personalidade. Mas, no meio destas descobertas, há um desmoronar de convicções que levam ao desapontamento.

Que comentários posso fazer?

- Já li e aceito que nesta obra domina o mundo feminino, em que a mulher se mostra forte, corta a direito, rompe relações e domina os ambientes. Mas também se nota entre elas a concorrência, a luta, o domínio, o ciúme, ou a amizade e a colaboração desinteressada. E até sentimos a história envolvida em elementos físicos mágicos, como sejam certos espaços de encontro, as casas, as roupas, e ainda uma pulseira, capaz de exalar beleza e arrastar maldição para a sua utente.

- As personagens surgem tão reais que nos cativam a atenção, ora pela nobreza ora pela vileza de caráter, ora porque são solidárias ou porque se enchem de ódio, egoísmo, ciúmes; ao fim e ao cabo, todos estão manchados!

- O fim da adolescência é mesmo tormentoso. O carinho dos pais já não enche o coração da filha, pois ela descobre falsidades, vida tortuosa nos seus adultos e começa a isolar-se, a autonomizar-se, assumindo posturas imprevisíveis, desde o desleixo pessoal ao desprezo pela escola ou mesmo vida sem regras, em busca de um ideal de mulher muito pessoal.

- Atenção: cada página é uma mistura de narração, descrição e diálogo interior em que Giovanna se discute a si mesma de uma forma perfeita. Admiramos o texto, mas temos de ver a criatividade da autora por detrás de cada palavra, que uma adolescente não consegue falar e escrever assim…

- Esta “história” está marcada de atualidade. Casais que se descasam e continuam amigos uns dos outros, mulheres que acham normal que o amor que sentem por um homem casado é razão para o tirarem à vizinha, mas que, após a morte do homem, são capazes de se juntarem as duas para tratar dos filhos de uma…

- Finalmente, a protagonista vai-se desprendendo de pessoas, da família, dos amigos e de espaços e, no final, até da cidade se desprende. À procura de uma libertação? É o que todos queremos!

Últimas palavras do livro: «… prometemos uma à outra tornarmo-nos adultas como nunca acontecera com nenhuma».

 

António Henriques

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

As flores da minha rua

 Estamos em confinamento, não é?

Pois, no meio de todo o sofrimento que este estado de coisas nos provoca, eu sinto-me um privilegiado. Tenho uma casa grande e um quintal, onde me posso distrair com alguma liberdade. Durante uns meses, caminhava em casa e no quintal para fazer os meus 2km. Depois, escolhemos uma zona do Seixal, muito reservada, onde nos distraíamos com o ambiente, as águas, as belezas circundantes. Mas começámos a ver que mais gente começava a usar aquela plataforma para mudar de ambiente.

Com o crescer de regras para o confinamento, sobretudo o distanciamento social, eu resolvi aproveitar as duas ruas do bairro onde vivemos para fazer as minhas caminhadas. O silêncio raramente é perturbado; apenas os melros se ouvem. Movimento de carros, vejo um ou dois durante aquela meia hora. Pessoas, também muito raramente me cruzo com alguém...

Assim, comecei a olhar para as casas, as ruas, os gatos e a natureza circundante, flores e árvores. Às vezes, até dá para rezar o terço... Hoje, peguei no telemóvel e fui captando fotos das flores mais significativas. Nada de especial, é verdade, mas o suficiente para me distrair. 

Se quiserem, vejam. É o melhor que posso trazer para sacudir o vazio do nosso blogue.

António Henriques

domingo, 25 de outubro de 2020

Visita aos dinossauros

 

Apresento-vos hoje mais um vídeo da nossa escapada de poucos dias pela zona do Oeste, em que, por imperativos da pandemia, privilegiámos a visita dos ambientes menos povoados. 

É o caso do DinoParque, perto da Lourinhã, onde num dia de semana não havia mais de 20 pessoas durante as horas em que por lá nos fomos distraindo. 

Este é um empreendimento de vulto, que nos faz olhar com espanto para aqueles 180 modelos em tamanho real, onde a variedade e grandiosidade das figuras não são nada iguais ao que no Museu da Lourinhã já tínhamos visto. Soubemos que só na Alemanha é que há outro igual ou maior.

Passeando por aquele pinhal sem fim, pudemos visitar períodos da terra muito antigos, com nomes esquisitos e sobretudo com uma povoação de seres que até metem medo! É a variedade, é o volume de alguns bichos, são as formas mais esquisitas, são ainda as cores abundantes daqueles dinossauros, muitos motivos que nos distraem e até nos fazem esquecer a horrível pandemia que nos tolhe os movimentos.

As crianças devem passar ali belos momentos. E nós também podemos ser crianças!

Também podemos visitar lá uma zona de trabalho sobre fósseis, almoçar sem riscos num espaço coberto e passar naturalmente pela zona dos "recuerdos". 

Ofereço-vos umas cinco dezenas de fotos para uma visita virtual. Acho que vale a pena!

António Henriques

terça-feira, 20 de outubro de 2020

As couves da Consolação

Neste apontamento, começo por dizer que não estou à procura de novo ofício, que nem sequer me ficava bem com a idade que tenho. Também não ando a disputar as fotos dos trabalhos agrícolas de que o meu amigo António Colaço já é especialista, aliando campo, arte e imaginação para quase diariamente nos dizer que existe.

A primeira realidade que constato é a pressão que sobre nós exerce a pandemia vírica. Andamos todos a fugir uns dos outros, com medo de pegar o bicho (que não é bicho!) ou ser apanhado por ele. Então, até o foco das nossas caminhadas ou viagens tem de desviar-se para outro lado. A natureza aí está para encher os nossos olhos, quer na forma de paisagem natural ou de terrenos cultivados pelo homem para deles extrair o sustento.

Aconteceu este ano nos poucos dias em que frequentámos a praia da Consolação em Peniche. Deixei-me tocar pelas imagens do campo em redor. E fui registando cambiantes em fotos que hoje trago para vosso leitura.

Fujo, para já, a questões importantes como é o caso de se tratar de agricultura intensiva, contestada por muitos e de que eu não tenho conhecimento. Também não estou preparado para falar do tipo de adubos usados ou da quantidade de água que se gasta.

O que me levou a fotografar foi simplesmente o gosto de olhar para aqueles campos em situações diversas de  tratamento. Já os vi verdejantes com outras culturas, curgetes nomeadamente, mas este ano eram as couves que mais ocupavam os espaços.  E dei por mim a pensar nos muitos trabalhos que estas explorações exigem. Lavrar, desterroar, alisar a terra, abrir leiras com medidas exatas para passar a máquina que automaticamente deixa cair e enterra os pequenos rebentos de couve dois a dois, distribuir pelo campo um sistema de rega que sacie a sede daquelas couvinhas, ora por aspersão ora por gotejamento, é um trabalho contínuo e muito esforçado.

As fotos que apresento acompanham o estado dos campos na sequência dos trabalhos agrícolas até à maturação final, com estes legumes prontos para chegar à nossa casa. São as máquinas e é o trabalho braçal, continuado por uma organização social adequada, pois estes produtos seguem para uma empresa (muito conhecida é no local a "Horta Pronta") que os prepara para embalamento e distribuição pelo diversos mercados. Não tirei foto, mas passámos por um local onde estavam expostas muitas centenas de abóboras que pacientemente foram retiradas da terra para serem vendidas. E também comprámos algumas por pouco dinheiro!

Vejam bem o que eu ando a ver! Vejam também vós estas fotos em ecrã inteiro.

António Henriques 



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Perto de Óbidos

 Alguns amigos já sabem que viemos passar uns dias no Oeste, mais propriamente no Cadaval, terra de agricultura verdejante e dinâmica, onde a fruticultura prepondera. A pera rocha e a maçã enchem os campos, todos bem tratados, com as culturas bem alinhadas e sujeitas a rega por gotejamento, que implica muito trabalho de início mas é eficaz e reduz o consumo de água. 

Temos andado por aqui a olhar para todos os verdes, alguns já a desmaiar nos locais onde dominam as vinhas. E até já experimentámos ir ao rabusco, colhendo saborosas maçãs vermelhas que ficaram na árvore por não terem o calibre desejado.

O Covid por aqui ainda não atingiu números alarmantes, o que muito nos agrada. Mas notamos que as pessoas estão a respeitar as regras profiláticas, o que mais nos deixa descansados.

Nós também fugimos de todos os ajuntamentos e temos escolhido ocupar as horas deambulando por lugares mais isolados. Ontem subimos ao alto da serra de Montejunto e na sexta-feira visitámos Óbidos.

Nesta "vila das rainhas", estivemos uma hora com poucos visitantes, em que pudemos beber a ginjinha em copo de chocolate e gastar mais algum dinheiro para ajudar o comércio, que continua a definhar. Simpatia não falta, como também se notam as muitas vendedeiras em conversa umas com as outras à porta, por falta de trabalho. As lojas, por dentro e por fora, estão muito bem decoradas e bem organizadas, talvez resultado do tempo que a pandemia lhes deu.

De Óbidos não digo mais, para além das fotos que aqui deixo. Todo o mundo conhece.


Mas fomos ainda, ali ao lado, visitar o Santuário do Senhor da Pedra, que apreciámos deveras. Aquele barroco rural impressiona ali no meio do campo. Uma igreja monumental, em hexágono por dentro e circular por fora, espaçosa, apresenta um púlpito que se alonga para o meio da assembleia longe das colunas. A foto explica.  

A história desta santuário reporta-se ao achado de uma pedra em forma de cruz com pequenos braços, que tem ao meio a imagem de um menino gravada na pedra. A lenda ligou logo esta cruz à proteção divina, e os crentes recorriam ao Senhor da Pedra pedindo ajuda para as colheitas, as doenças e até aos resgates em alto mar (!!!).

A construção data de meados do séc. XVIII (1747) e teve como grandes mecenas o 1.º Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José de Almeida, e o rei D. João V, ele próprio "mui devoto do Senhor da Pedra". Saliente-se ainda a riqueza da talha dourada e policromada, as imagens em madeira e as muitas telas no interior da igreja. E, ali ao lado, podemos ainda admirar um chafariz "rocaille" da mesma época.

Vale a pena uma visita. E deixem um donativo para a manutenção do templo...

António Henriques







segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Na praia do Seixal

 Com o desejo de trazer novidades para esta página, lembrei-me de criar hoje um vídeo de 2,30m a mostrar uns pormenores da minha terra há 35 anos. 

Naturalmente, isto é saboreado por poucos, mas peço desculpa pelo atrevimento.

Estamos na ponta da terra, virados para o Barreiro, junto do cais fluvial que leva e traz muita gente de e para Lisboa. Aqui perto, também faço caminhadas para tratar do meu físico. Na foto, a minha pista de corrida, ai não, caminhada!

E tudo se pode visitar, para agrado de muitos, pois o Seixal, nos últimos tempos, tem sido renovado a nível de infra-estruturas, a que se junta a novidade das muitas construções na Quinta da Trindade, onde até o Benfica veio assentar arraiais.

António Henriques